Análise da moradia a partir do livro 'Lições de Arquitetura' Herman Hertzberger

    

    Como uma análise inicial partindo do quarto, a questão levantada por Hertzberger sobre como vemos o espaço e como ele pode ser integrado ao nosso alcance de forma que se torne mais transparente e menos estratificado se mostrou muito presente por todo o estudo. Uma característica que não encontro muito no apartamento ou no meu quarto, uma vez que praticamente todos os cômodos são bloqueados por uma porta de madeira, é a articulação e uma visão mais ampla dos cômodos. Basicamente no meu quarto eu consigo olhar uma parte do quarto na diagonal, mas a partir do momento que mudo de posição e vou para minha mesa, fico de costas para a porta, o que novamente promove a perda de alcance visual tanto de dentro para fora quanto de fora para dentro. Na questão da polivalência do espaço, ele apresenta muitas limitações- a exemplo de uma única tomada no quarto todo o que me obrigou a deixar a mesa em uma única posição - no entanto, como acontece em todos os cômodos do apartamento, há um pequeno parapeito que permite com que você o use da forma que desejar, aqui em casa usamos mais para colocar plantas, e no espaço da lavanderia usamos para colocar alguns produtos de limpeza ou até mesmo para escorrer algumas vasilhas quando as lavamos. Também uma bancada na cozinha usamos a parte de baixo para colocar a comida e água da cachorra e a parte de cima para colocar alguns potes e comida no geral, mas no prédio da frente há muitas janelas que usam esse pequeno espaço para colocar sapatos, almofadas, roupas também. Usamos também um dos quartos como uma pequena academia para nos exercitarmos e o banheiro dos fundos como um depósito de utensílios. O apartamento possui uma disposição muito clara de ‘esse lugar é para isso e aquele para aquilo’ , em uma segregação de funções -com raras exceções- além de apresentar muito o que o autor diz ser ‘neutro’: o ambiente sendo neutro, buscando uma liberdade de uso, na verdade limita muito o espaço, pois não há traços de identidade. Por exemplo, o espaço dos quartos -quatro ao todo- é separado de forma muito clara do restante da casa por meio de uma porta no corredor que apanha tudo isso para um canto da casa e permite fazer essa distinção de ‘esse espaço uso para dormir e descansar e aqui na sala uso para atividades coletivas e diversão.’ 

Parapeito da copa com algumas plantas

Parapeito do prédio vizinho com alguns sapatos

Visão do meu quarto em relação ao outro quarto

Uso do parapeito na área de lavanderia

Banheiro usado como um pequeno depósito

Parapeito do prédio vizinho também com plantas

Bancada da cozinha
Porta que separa área dos quartos do restante do apartamento

    Quando saímos de dentro do apartamento nos deparamos com um espaço semelhante ao que o autor explora no texto chamado de ‘o intervalo’. Não é de fato dentro do apartamento nem fora dele e funciona como um ponto de encontro dos vizinhos e que durante a pandemia é usado para colocar sapatos do lado de fora, além de também ser um espaço que cada morador tenta deixar com algum pequeno traço seu -sempre usando o canto das paredes, que poderia realmente ser bem sugestivo de ser preenchido por algum objeto como vasos de planta. O espaço é convidativo até esse ponto, pois apresenta uma pequena poltrona no térreo, antes de sair para a garagem, mas ninguém senta lá. Talvez pelo fato de dois não poderem estar sentados ao mesmo tempo obrigando um a ficar em pé e se um sentasse na escada não enxergaria o outro durante uma conversa, gerando um constrangimento de quem fica sentado e quem fica em pé, geralmente a solução é os dois ficarem de pé ou sentados no chão (mas é de ardósia que ou está muito fria ou quente, então provavelmente não se sentaria muito). Também, é usado o espaço embaixo da escada para guardar material de limpeza do prédio que todos podem usar.

Visão da saída de dentro do apartamento

Sapatos na porta junto com um tapete 




Visão de quem está descendo as escadas

Vista de quem está chegando no prédio


    Ao chegarmos no nível térreo o prédio apresenta diferenciações territoriais e demarcações territoriais. O prédio é feito por um portão de grade que permita uma visão tanto de quem está de fora quanto quem está de dentro, não sendo muito brusco a sensação semelhante que prédios ou casas muradas podem causar, um sentimento de ‘expulsão’. Como uma segunda porta que marca a parte de ‘dentro’ do prédio ela é feita de vidro, de onde estamos dentro mas ao mesmo tempo vemos até a rua, que nos traz a sensação de que ainda estamos em um lugar comunitário – que de fato é compartilhado por todos do prédio, situação semelhante a descrita pelo autor no quadro ‘A Carta’ de Pieter de Hooger na página 86. Essa gradação entre interior e exterior continua até o momento que nos deparamos com as portas do apartamento, todas de madeira, que não permitem observar parte de dentro e nem ser observado por alguém que está passando. Outra questão no prédio é que não há uma área como um terraço individual, mas apesar disso há um enorme espaço na parte de trás que não é usado para absolutamente nada, a não ser por todos daqui de casa que usa para correr com as cachorras nele. Seria um espaço muito proveitoso porque todos os quartos de casal do prédio é voltado para esse lugar, o que permite uma visão muito boa de quem está dentro do apartamento para quem está embaixo, aqui pensando por exemplo em alguém que tem uma criança pequena ou algum parente mais novo que vem visitar e decide brincar, sem necessariamente obrigar todos a descerem. Ainda, da forma que a garagem foi feita ela é rodeada por uma diferença de nível tanto do jardim como com um quadrado ao redor de uma pilastra que pode ser usada para sentar, o que forma uma maior articulação e possibilidade de conexão, como Hertzberger trata em ‘o espaço habitável entre as coisas’. O prédio também tem um espaço de jardim que não possui uma forma convidativa. O autor, por exemplo, usa de blocos perfurados para construção para incentivar que os usuários preencham o que está vazio sem forçar uma relação e nem individualizar uma ação, pois todos podem fazer de forma conjunta. Essa sugestão poderia se dar bem aqui, uma vez que o jardim acaba se tornando de todos e de ninguém ao mesmo tempo não permitindo um envolvimento e pertencimento `aquele ambiente.











Vista do quarto de casal



    Em relação a rua, ela não é muito ‘habitável’, possui passeios muito estreitos e nenhum tipo de assento, como muretas ou bancos de concreto, elevações e desníveis que permitam um contato informal entre as pessoas. Observando a forma como se dispõe os quarteirões pude perceber o que o autor chama de ‘grelha’, forma de ordenamento muito comum no urbanismo o qual os lotes são quadrados ou retangulares, buscando um ordenamento do ambiente ao redor.



    Ao fazer todo esse apanhado de informações, pude perceber como o espaço que habito é limitante em alguns pontos muito pela forma como foi feita que me faz sentir à parte de tudo, principalmente dos meus vizinhos, os quais não tenho muito contato nem por vista, como o autor usa de varandas por exemplo em várias construções, nem por um contato mais próximo, mas algo sempre muito corriqueiro: alguém saindo de carro que cumprimenta mas nunca há onde parar para sentar e conversar e nem um lugar mais óbvio para uma festa, um almoço ou jantar de todos – supondo que não estivéssemos em uma pandemia.

Comentários

  1. O texto está muito bem escrito, soube guiar bem o leitor, articulando os conceitos e os exemplos de seu espaço, utilizando uma grande quantidade de imagens, o que favoreceu a visualização dos espaços abordados. Soube combinar bem os capítulos e os tópicos do livro em sua análise, mesclando e associando diferentes assuntos. Além disso, apresentou uma visão bem pessoal de seu espaço, indicando os aspectos positivos e limitantes dos locais.

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